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O que não te contaram sobre o trabalho remoto

Desde que anunciamos que, oficialmente, a Taller é uma empresa 100% remota, muitos amigos e colegas da área vieram tirar dúvidas sobre como está nossa experiência e como fizemos essa transição. Minha intenção com esse material não é fazer um guia, mas poder apontar direções que funcionaram para nós, coisas que aprendemos a lidar e que são difíceis ou constrangedoras, e contar um pouco como tudo aconteceu. Quem sabe pode ser o que a sua empresa está passando também?

Se você espera um texto clássico falando sobre boas práticas e dicas clichês sinto por te decepcionar.

Como foi o nosso processo de transição

Nós temos cinco anos de estrada e sempre tivemos nossas sedes que, aliás, eram super amadas e lindas. Casas grandes, com vistas incríveis, piscina e um clima aconchegante.

casataller

Trabalho remoto sempre esteve presente nas nossas conversas mas nunca foi uma intenção verdadeira para muita gente. Alguns preferiam trabalhar de casa e outros junto com os demais na empresa/casa e nós sempre deixamos essa possibilidade aberta.

Recentemente, com o número reduzido de talleres, percebemos que uma grande casa já era um desperdício de investimento. Cada vez mais organicamente as pessoas optavam por trabalhar em outros lugares.

Então começamos a fazer testes. De tempos em tempos escolhíamos uma semana onde todos ficavam remotos e, depois, nos reuníamos novamente e conversávamos sobre nossas experiências e o que cada um achou. Quando todo mundo entendeu a razão e se sentiu confortável com a decisão optamos, então, por fechar nossa sede. Não sem uma festa de despedida. Ou duas, talvez. 😉

Como gostamos uns dos outros, queremos manter um encontro quinzenal num coworking para confraternizar e a gente não perder aquele contato mais próximo que os encontros presenciais ainda conseguem potencializar.

 

Razões para optar pelo trabalho remoto

Além do que eu já relatei anteriormente, vamos a pontos objetivos:

Mobilidade: Florianópolis é um ótima cidade para se viver mas muito ruim quando precisamos nos deslocar, principalmente no verão. Como nossos talleres moram em diferentes regiões, sempre, em alguma época do ano, ficava ruim para alguém. Então para que perder tempo de deslocamento para se fazer o mesmo trabalho que se poderia fazer em casa ou noutro lugar próximo?

Flexibilização de residência: nossa empresa é formada por profissionais jovens que tem ambição de viajar e morar noutros lugares. Alguns já foram, inclusive. Além disso, dentro da própria cidade, não existe mais a dependência de morar próximo ao trabalho; pode-se escolher um bairro melhor, ou mais perto da praia, ou mais barato.

Melhor comunicação em reuniões: sim, isso mesmo. Como nós tínhamos um modelo híbrido, com algumas pessoas presentes e outras 100% remotas, nossas reuniões ou cerimônias nunca eram totalmente justas com quem não estava no local, por mais boas práticas e novas medidas que tomássemos.

Autonomia: poder administrar sua rotina e alinhar com a de alguém que você possa conviver, por exemplo. As incertezas como trânsito que vai te atrasar, ou o celular que acabou a bateria tendem a diminuir drasticamente.

 

Dificuldades até agora

Djeezus, por onde começar? rsrs Já aviso: lá vem depoimento sincerão.

Comunicação virtual: oi? Péra a ligação cortou. Pode repetir? Eu caí? Até onde você ouviu?
Ao passo que o trabalho remoto ajudou na comunicação de cerimônias, a internet não é lá a melhor amiga de todos, assim como não são os computadores ruins, os microfones com ruídos e a câmeras que deixam as pessoas verdes. Prepare-se para repetir muito, ser compreendido(a) de forma errada, várias vezes. Ocasionalmente você também contará histórias lindas enquanto esqueceu seu microfone desligado. Tenho a impressão que a tecnologia é, por vezes, indomável.

Você tende a trabalhar mais: a maior preocupação das grandes empresas é achar que as pessoas não terão a disciplina e responsabilidade de trabalhar o quanto devem quando estiverem em casa. Mas todas as minhas conversas, sem exceção, me levam a concluir o contrário. Não são dados científicos mas empíricos. Você vai dar uma estendidinha quando está no conforto do seu escritório com a cadeira que você escolheu, suas roupas confortáveis e seu próprio horário disponível para os surtos criativos. Por favor, não confunda trabalhar mais com ser mais produtivo(a).

Barulhos da rua: quem mora em casa ou nos andares mais baixos sofre ainda mais com isso. É o vizinho que resolveu furar a parede, o carro do ovo que resolveu passar, aquele dog alemão da casa ao lado que não para de latir. Você vai desmarcar sua reunião importante com seu cliente? Não mesmo. O negócio é pedir desculpas e focar no valor.

Seus companheiros(as) não entenderão: pode ser seu cônjuge, seus pais, ou um roommate. Pra quem não está habituado ao modelo de home office será incompreensível a louça estar do mesmo jeito na pia sendo que você “está o dia todo em casa.” Ou difícil de entender porque passar aspirador enquanto você faz um pair programming te tira tanto do sério. O negócio é conversar, alinhar horários e ter paciência; dos dois lados.

Esquecer a câmera ligada: por motivos óbvios. Erro de amadores(as), assim como eu. Assim como esquecer de desconectar aquele hangout com seu colega que ouviu toda a sua DR. Faz parte, une as pessoas 😛

Investimentos em infraestrutura: não só na internet, mas é importante poder comprar um bom monitor, ou um bom fone e uma boa cadeira. Nem sempre a gente tem grana ou prioriza isso no início mas, acreditem: trabalhar sentado(a) no banquinho da cozinha ou deitado(a) no sofá não traz benefícios a longo prazo. Lembre também que você tem alguns benefícios garantidos por lei nesse caso e você pode saber mais sobre isso aqui.

Disciplina: é inegável, é complicado. Nem todo mundo tem o dom maior de sabedoria de se arrumar e trocar de roupa pra sentar (às vezes dentro do quarto) e começar a trabalhar. Ou de não deixar o despertador para 10 minutos antes daquela reunião e chegar com a cara amassada. Ou de avisar os amigos que vai se ausentar durante um tempo para poder levar o filho no colégio ou tirar a roupa do varal. Mas é possível, só não podemos desistir.

Trabalho remoto é legal, oferece várias novas oportunidades, mas não é um mar de rosas. Tem pessoas que se adaptam bem e outras não tanto. Li recentemente num e-book sobre o assunto que precisamos ter pessoas com as aptidões certas para fazer esse modelo acontecer e, sinceramente, acho isso uma tremenda bullshit. Temos que acreditar no poder de adaptação das pessoas, em suas possibilidades de melhorar hábitos e adquirir novos. E temos também que estar preparados para as pessoas que, por simples escolha, não curtem trabalhar remoto. Para mim não é questão de competência, é questão de querer ou não.

Leia sobre o assunto e procure empresas referências, sempre tem alguém disponível e bacana pra trocar uma experiência. Mas lembre-se sempre que uma experiência dificilmente será como a outra. Tenho conhecimento de empresas que têm regras estritas sobre vestuário ou ambientes em que se podem ligar a câmera, por exemplo, e eu acho isso ótimo, se funciona no contexto delas. Nós ainda temos uma liberdade (e a intimidade de um time enxuto e maduro ajuda nesse caso) nessas questões, mas que nos leva a momentos em que você está conversando com alguém que está passando fio-dental.

Acho que o mais importante nesse processo de transição é checar como as pessoas se sentem, quais são suas dificuldades e deixar um canal aberto para sugerir melhorias. Ninguém vai saber melhor sobre elas do que as próprias pessoas.

Durante o processo de tomada de decisão para sair da casa gravamos um podcast com dois convidados que já estavam vivenciando a experiência de trabalhar 100% remotos. Pegamos várias dicas legais, e que podem ser úteis para o contexto de vocês.

 

(Obs.: Os links citados no podcast estão no post do episódio).

 

E você, tá trabalhando remoto ou pensando em investir nesse modelo? Conta pra gente sua experiência!
Até mais! 😀


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  • handrus

    Adoro seus relatos Mari!
    Não posso estressar o bastante a importancia de uma boa mesa e uma ótima cadeira. Ergonomia ajuda em tudo!

    • Mariana Graf

      Verdade Handrus, e você sempre nos lembrou disso. Antes tarde do que nunca né? Sei que estamos longe do ideal mas buscando sempre melhorar!
      Muito obrigada!!

  • Larissa Da Rocha Guimarães

    Oi Mariana! Adorei seu relato. Eu e meu marido temos uma empresa de desenvolvimento de software aqui no RJ e desde o inicio somos 100% remotos, começamos há quase 2 anos e é muito bom perceber que mesmo com toda a preocupação que vocês tiveram com a transição, ainda encontram os mesmos problemas que nós.
    Incrivelmente, tem sido difícil encontrar pessoas engajadas, com essa disciplina que você descreve e bom senso de talvez não ir tirar a roupa do varal no meio de uma entrega! rs Ainda temos uma rotatividade grande que não gostaríamos…
    No Agile Brazil ano passado fomos muito em busca de experiências com equipes remotas e encontramos bem menos do que gostaríamos.
    Quem sabe esse ano possamos levar um pouco mais desse mundo do trabalho remoto para Belém? Adoraria ler mais sobre a experiência de vocês até lá!
    Beijo!

    • Mariana Graf

      Oi Larissa! Muitíssimo obrigada!
      Este ano estarei novamente no Agile BR, mas a gente pode trocar umas figurinhas antes 😀
      Me adiciona no hangout mariana@taller.net.br ou no linkedin que a gente pode conversar quando der, o que você acha?
      Um abraço!

      • Larissa Da Rocha Guimarães

        Podemos, sim!
        Vou adicionar! : )

        Abraço!

  • André Suman Pereira

    Parabéns pelo post Mari, obrigado por compartilhar!
    Interessante a sua visão onde “as pessoas podem se adaptar e adquirir novos hábitos”. Este é um case super interessante de empresa que migrou para 100% remoto, não conheço nenhum outro caso. Já pode preparar a palestra! 😉

    • Mariana Graf

      Obrigada André! Já pensei em palestrar sim sobre isso, só não sei bem onde rsrs
      Fico feliz que você tenha gostado da nossa trajetória! Obrigada pelo seu comentário 🙂

  • Antonio de Campos

    Mari, como sempre parabéns pelo post e pelo podcast. Não consegui ouvir direito na parte que o Yoris recomenda os podcasts de uma colega na Happy Melly mas acho que ele se referiu à http://www.lisettesutherland.com, é isso né? Abs!

  • Mario Heber

    Mari,
    Que baita post!
    Direta, sincera e com uma linguagem fácil de entender.

    Teus posts matam um pouco da saudade de nossas conversas.

    • Mariana Graf

      Obrigada Mario!! Me inspirei bastante em ti pra escrever ele hahaha

      Beijo!!

  • yoris linhares

    É isso Mari, a pegada é um tanto diferente, legal e carrega um nível alto do que os gringos de língua inglesa chamam de “accountability”. Não tem ninguém olhando, pode trabalhar até de “roupas de baixo” e de onde e quando quiser, mas tem que entregar valor e ser responsável por essa entrega. Muito bom!

    • Mariana Graf

      Isso mesmo Yoris! É um processo de adaptação em que a empresa tem que ser mostrar parceira e aberta para os erros e acertos nessa transformação. Nem sempre é fácil, nem sempre é legal, mas os pontos pessoalmente positivos desse modelo de trabalho fazem valer a pena 😀
      Abraço!

  • Tales Farias

    Post muito bom mesmo! Parabéns. Nós começamos nossa empresa já no modelo Home Office e nos identificamos muito com os prós e cons que vocês tiveram.